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Estão as pessoas conversando como elas postam?

Existe uma grande diferença entre conversar e falar e, particularmente, não me agrada “falar” nem ouvir outros “falando” — a não ser que seja uma palestra que eu tenha escolhido ir. Também nunca fui fã de vídeos; detesto TikTok e todos os conteúdos de pessoas falando sobre como se faz sei lá o quê ou contando qualquer coisa sobre qualquer assunto que chegam até nós sem que saibamos o que é.


Mas uma boa conversa — isso é a melhor coisa da vida.

E essa reflexão é sobre isso.





Quando comecei a escrever este texto, joguei no Google "conversa"


Conversa: substantivo feminino


Troca de palavras, de ideias entre duas ou mais pessoas sobre assunto vago ou específico; colóquio, conversação.


“A palavra conversa vem do latim conversare: con- (‘junto’, ‘com’) + versare (‘virar’, ‘voltar’), significando ‘virar-se para junto de alguém’ ou ‘conviver’, indicando um direcionamento da atenção e companhia mútua; ‘voltar-se para o outro’; uma comunicação bilateral, em que todos participam.”


Achei fofo.


Há algum tempo tenho percebido uma mudança na forma como se desenrolam os encontros sociais: as pessoas falam e falam sobre fatos que aconteceram na semana ou no mês e geralmente mostram vídeos/fotos disso. Uma coisa meio “updates”. {Nisso, desenvolvi uma fobia de pessoas abrindo o rolo da câmera para mostrar sei lá o quê, como se fosse a comprovação do que estão contando. Isso se faz nas redes sociais, né? Ps.: mostrar foto do gato/cachorro tá liberado.}


É legal saber o que acontece na vida de quem está com a gente, mas até certo ponto e não só.


É bem mais legal um encontro que contenha conversa do que apenas exibição de vida.

“Olha o que eu fiz, olha onde eu fui, olha isso, olha aquilo, eu, eu e eu.”


Cansei de sair desses encontros e perceber que eu tinha apenas reagido a falas, falado pouco ou nada — e, desse pouco, muito eram onomatopeias acompanhadas de algumas expressões faciais, mais políticas do que reais. Cansei de sair me questionando como sair disso sem ser rude. Cansei de puxar papo e vir monólogo, e sair sentindo falta de ter tido uma conversa.



Me questiono, então, se isso tem relação com o uso das redes sociais, onde se postam coisas que acontecem, “contando” fatos que a própria pessoa julga interessantes, e existe ali uma audiência que vai reagir ou não e, de imediato, passar para o próximo assunto.


Isso tirou a habilidade das pessoas de se conectar, de realmente escutar o outro e, no lugar, colocou esse sistema de mostrar pelo mostrar?


Em um paralelo com a câmera frontal do celular, será que essa coisa de postar entrou tanto na mente da galera que é como se, ao falar (mesmo no off-line), estivessem querendo audiência?


{Isso daria uma boa história em quadrinhos, mas não sou boa com figura humana. Se alguém quiser ilustrar, bora.}


Talvez isso tudo seja sobre a solidão e vazio que as redes sociais causam... Uma necessidade absurda de atenção obtida pelo que se faz e não pelo que se é.


Bem, no meio disso tudo existem aqueles raros encontros — compostos de raras pessoas — que se tornam ainda mais preciosos diante dessa onda de falar e falar: encontros onde se conversa, onde existe escuta ativa, onde não há um holofote sobre si próprio, mas sim uma troca equilibrada, debates, construções, interesse mútuo e reflexões.

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